Como cheguei à Estatística. Se dependesse do meu pai, eu seria contablista
Quando concluí a sétima classe, em 2001, éramos obrigados a escolher se continuaríamos no Ensino Geral ou se passaríamos para o Ensino Técnico, fosse a escola comercial ou industrial. Naquele período, a minha aspiração era fazer electricidade, electrónica ou outra área ligada às STEAM. Lembro-me de ter preenchido um formulário onde indiquei que queria seguir o Ensino Industrial e tinha escolhido um curso relacionado com electricidade. No entanto, o documento precisava da assinatura do meu encarregado de educação, o meu pai. Quando lhe apresentei, ele logo insurgiu-se e escusou-se de assinar aquele documento e que só assinava se a opção fosse ir à escola comercial para fazer Contabilidade. Imediatamente, fui obrigado a procurar outro formulário para satisfazer a vontade dele. Para minha sorte, o meu nome não apareceu na lista dos que iam para a escola comercial, e muito menos para a escola industrial.
No ano seguinte, tive de continuar na mesma escola, a Escola Secundária da Machava-Sede (ESMS), onde fiz da 8 ª até à 10.ª classe. Devo confessar que, na oitava classe, tinha sérias dificuldades em quase todas as disciplinas, mas, após um incidente de indisciplina, em que me envolvi numa luta com um colega, o meu pai decidiu lavar as mãos e deixar-me a própria sorte. Acho que foi graças a essa postura que mudei de atitude, comecei a empenhar-me um pouco mais e descobri que tinha uma certa inclinação para as Matemáticas, algo que se consolidou na 9.ª e 10.ª classes.
Depois de terminar a 10.ª classe, fui para a Escola Secundária da Matola, visto que a ESMS só leccionava até 10.ª classe. Lá, fiz a 11.ª e 12.ª classes e, por ter tido um bom desempenho a Matemática e Física, decidi que iria fazer Engenharia Electrónica. Isso levou-me a concorrer para Engenharia Electrónica na UEM como primeira opção e Estatística como segunda opção. A escolha pela Estatística foi para responder ao desejo do meu pai, que sempre quis que eu fizesse Contabilidade, pois, para ele, essas duas áreas partilhavam similaridades. Devo dizer que só não concorri para Contabilidade por que um dos exames de admissão era Português e eu não era nada bom em Português, embora, na 10.ª e 12.ª classe, tenha dispensado o exame da disciplina.
Na altura, também tinha concorrido ao curso de Electrónica na Universidade Pedagógica (UP), onde fui admitido. Mas, como a UP era apenas uma alternativa caso não conseguisse vaga na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), acabou sendo descartada. Para além disso, o meu desejo era mesmo entrar para a maior e mais antiga universidade do país, a UEM.
Na UEM, o ingresso no curso de Engenharia Electrónica exigia notas equilibradas, 50% para Matemática e 50% para Física, enquanto, para o curso de Estatística, a ponderação era de 75% para Matemática e 25% para Física. Lembro-me de que, na altura, obtive 16 valores no exame de Matemática e 12,75 no de Física. Com essas notas, e com um desequilíbrio que favorecia a Matemática, só consegui vaga na minha segunda opção, que era Estatística.
Já na UEM, a frequentar o curso de Estatística, o primeiro ano chegou como um balde de água fria. Aquilo era muita Matemática e muito distante do que eu estava habituado. Com a ideia de que Matemática era resolver equações, limites, derivadas, etc., o que víamos eram demonstrações de teoremas e conteúdos muito abstractos, que nos afastavam de perceber a aplicação real daqueles conceitos e de que forma tudo aquilo se ligava à Estatística. Em certo momento, perdi a paixão pela Matemática, sem falar na metodologia usada pelos professores, que, em conversas com colegas, nos levava a questionar: “Será que estes tipos têm alguma formação pedagógica?” Eram muitos questionamentos. A verdade é que o primeiro ano foi um verdadeiro terror; contudo, nada podia ser feito, pois, naquela altura, já não havia como recuar. E foi aí que a frase “difícil não é entrar, mas sim sair”. No final, valeu a pena ter tido muita matemática. Embora a Estatística seja um ramo independente, tem a sua base assente sobre a Matemática.
Embora o primeiro ano tenha sido muito desafiador, depois consegui enquadrar-me. Isso, graças a pessoas incríveis que cruzaram meu caminho. Ainda no primeiro ano conheci Herlander Namuiche, um estudante do terceiro ano do curso de Estatística, e que depois ficou meu colega de trabalho, que me orientou na cadeira de geometria espacial. Conheci também Joseph Katame, estudante do terceiro ano do curso de Informática, que também trabalhou comigo dando-me dicas de Análise Matemática e Programação. Tive ainda a sorte de contar com o apoio de um colega muito bom, o Vasco Langa, que dedicava seu tempo explicando-me conceitos que eram de difícil compreensão. Tenho de confessar: o Vasco foi um dos tipos mais brilhantes que conheci. É uma pena que não tenha terminado o curso, pois precisou de ir à Índia fazer algo relacionado com Informática; ainda assim, acredito que o país perdeu um grande profissional de Estatística. Esse trajecto todo, fez-me perceber que, na vida, precisamos sempre de um mentor, alguém que já conhece o caminho que muito bem pode nos instruir como trilhar e superar trajectos tortuosos.
Os anos passaram e, em 2011, terminei a minha Licenciatura em Estatística. Após concluir o curso, o desejo era fazer um mestrado e, como na altura, na minha monografia, eu havia escrito sobre o impacto das variações da taxa de câmbio Rand–Metical sobre a inflação em Moçambique, pensei que poderia avançar para algo relacionado à economia. Além disso, havia uma avalanche de vagas nos bancos comerciais para técnicos de estatística, e tudo isso contribuía para o meu interesse em fazer um mestrado numa área mais voltada para a economia ou finanças. Durante a busca por oportunidades de mestrado, deparei me com as bolsas da Fulbright, para as quais concorri com a intenção de fazer algo situado na interseção entre Estatística e Economia/Finanças. Infelizmente, o resultado do processo de seleção não foi satisfatório: primeiro, porque não consegui uma boa nota no teste de inglês, o TOEFL; e depois porque não soube responder a perguntas sobre o que eu mesmo havia escrito na carta de motivação, e acredito que isso pesou ainda mais para não avançar para as etapas seguintes do processo. Sobre a carta de motivação, devo confessar que adaptei um modelo apanhado na internet e que na verdade só mudei o meu nome.
No dia da entrevista, para o meu azar, um dos painelistas, uma jovem muito calma, mas bem atenta, perguntou-me o que que significava “cutting edge instrument”. Esta frase estava lá na minha carta de motivação. Com o meu Inglês deficiente, fiquei completamente bloqueado. Gaguejei, tentei improvisar alguma resposta só para sair dali com alguma dignidade, mas aquilo foi um desastre. No entanto, aprendi uma lição que ficou para a vida: seja o que for, é sempre melhor ser autêntico. Embora não tenha conseguido uma vaga para as bolsas da Fulbright, a minha luta por uma oportunidade de mestrado não terminou. Num desses dias, nos corredores da UEM, no Departamento de Matemática e Informática, cruzei me com uma das professoras incríveis do curso de Estatística, a Dra. Rafica. Na altura, ela era coordenadora do Programa Desafio, que era a ponte para formação entre as universidades belgas (na região Flanders) e a UEM. No meio da conversa, contei lhe que queria muito fazer o mestrado. A essa altura, já nem importava se seria na área que antes tinha em mente (economia ou finanças). A verdade é que a única opção possível era Bioestatística. Foi então que ela me lançou a pergunta: “Estarias pronto para sair do país hoje mesmo?” E eu, sem pensar duas vezes, respondi: “Sim”. Disto, aprendi que nunca devemos ter receio de aproximarmo-nos das pessoas, por mais que elas pareçam inacessíveis, pode ser aí onde está a chave para o nosso sucesso.
E foi assim, quase num piscar de olhos, que em 2013 segui para a Bélgica, onde fiz o mestrado em Bioestatística na Universidade de Hasselt. Depois de concluir o curso com distinção, iniciei o doutoramento em 2016, sob a supervisão da Prof. Dra. Christel Faes e do Prof. Dr. Marc Aerts.
Para o consolo do meu pai, depois desta trajectória toda, o que ele me disse é que tanto na Contabilidade como na Estatística trabalha-se com números. Então, para ele eu era um Contabilista.